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Por muito pouco: PF diz que voo para Cascavel já reunia condições para uma tragédia

O primeiro voo do dia já demonstrava falhas críticas no sistema de degelo


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A investigação da Polícia Federal aponta que os primeiros indícios de problemas no sistema de degelo da aeronave surgiram horas antes do acidente que matou 62 pessoas em Vinhedo (SP). Segundo o inquérito, durante o voo entre Guarulhos e Ribeirão Preto, o sistema apresentou falha enquanto a aeronave voava em condições favoráveis à formação de gelo. Diante da situação, o comandante alterou a altitude para deixar a área de congelamento e prosseguir o voo em segurança. Apesar disso, a ocorrência não foi registrada no Livro Técnico de Bordo (TLB), documento utilizado para comunicar falhas à equipe de manutenção.

De acordo com a Polícia Federal, um mecânico chegou a ser informado verbalmente sobre o problema, mas nenhuma anotação formal foi feita. A investigação também aponta que o mecânico responsável pela inspeção da aeronave em Ribeirão Preto não adotou providências em relação à falha relatada.

Ainda segundo o inquérito, no voo seguinte, entre Ribeirão Preto e Guarulhos, o sistema de degelo voltou a apresentar falhas. Mesmo assim, novamente não houve registro da ocorrência no Livro Técnico de Bordo. Após esse trajeto, a aeronave foi utilizada no voo para Cascavel e, na viagem de retorno, caiu em Vinhedo, provocando a morte de todos os 62 ocupantes.

Durante as oitivas, a Polícia Federal também investigou a existência de uma prática de postergar o registro de falhas para que determinados problemas fossem solucionados apenas na base de manutenção da companhia, em Ribeirão Preto, onde havia maior estrutura técnica. Essa hipótese foi abordada em depoimentos colhidos ao longo do inquérito e integra a linha de investigação sobre a gestão da manutenção da empresa.

Para a Polícia Federal, a sequência de falhas identificadas antes do voo do acidente, somada à ausência de registros formais e à continuidade da operação da aeronave, compõe um dos principais elementos que fundamentaram o indiciamento de 16 pessoas, entre pilotos, mecânicos, inspetores, gestores de manutenção e o proprietário da Voepass.

Primeiro susto aconteceu ainda pela manhã

A reconstrução feita pela Polícia Federal mostra que o dia começou com uma sequência de voos da aeronave PS-VPB.

Ainda no trecho entre Guarulhos e Ribeirão Preto, o sistema pneumático de degelo apresentou falha. Os computadores de bordo registraram o alerta AIRFRAME FAULT, indicando anormalidade justamente no equipamento responsável por remover o gelo acumulado nas asas.

Apesar da pane, a tripulação conseguiu deixar a área de formação severa de gelo e completar o voo. O comandante alterou a altitude e conseguiu pousar em Ribeirão Preto.

Problema foi comunicado apenas verbalmente

Mesmo diante da ocorrência, a Polícia Federal afirma que o comandante comunicou o defeito apenas verbalmente aos mecânicos que receberam a aeronave em solo.

Segundo a investigação, essa prática fazia parte de uma chamada "cultura de não reporte", já identificada em outros documentos analisados durante o inquérito.

Em vez de registrar oficialmente a pane no Technical LogBook - documento obrigatório para acompanhamento das condições técnicas da aeronave — o problema ficou restrito à comunicação informal entre piloto e equipe de manutenção.

Para a PF, a ausência desse registro impediu que fossem adotadas medidas formais de manutenção e avaliação da aeronavegabilidade.

"Olha o gelo se soltando da aeronave"

Ao vir para Cascavel, o avião não caiu por muito pouco. Segundo a investigação, as gravações analisadas mostram que a tripulação percebeu visualmente o desprendimento de placas de gelo da aeronave enquanto deixava a região crítica.

Um dos momentos destacados pela Polícia Federal é quando os pilotos observam o gelo se desprendendo da estrutura da aeronave. Logo depois do pouso, o sentimento era de alívio.

De acordo com o relatório, um dos tripulantes chega a comentar: "Ufa, chegamos vivos!"

Para os investigadores, a frase demonstra que a gravidade da situação havia sido percebida ainda naquele voo. O avião voltou para a mesma rota. Depois de pousar, a aeronave passou pelos procedimentos de solo e voltou a ser despachada. Ela decolou novamente, realizou o voo até Cascavel e, na sequência, iniciou o retorno para Guarulhos.

Foi justamente nesse último trecho que o sistema voltou a apresentar falhas.

Os investigadores afirmam que a tripulação recebeu novamente o alerta AIRFRAME FAULT, mas os procedimentos previstos para abandonar imediatamente a área de formação de gelo e executar as listas de emergência não foram realizados da forma prevista pelos manuais da fabricante.

PF: acidente poderia ter sido interrompido antes

Para a Polícia Federal, a sequência demonstra que houve diversas oportunidades para impedir a tragédia. A principal delas ocorreu ainda no primeiro voo do dia. Na avaliação dos investigadores, se a falha tivesse sido registrada formalmente, a aeronave poderia ser retirada de operação para inspeção técnica antes de voltar a decolar.

O relatório sustenta que a omissão documental rompeu uma das principais barreiras de segurança da aviação, permitindo que o ATR permanecesse em serviço mesmo após sucessivos alertas do sistema de degelo.

Gabi Lira | Catve.com

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