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Relatório final aponta 19 fatores que contribuíram para acidente da Voepass

Investigação encontrou problemas técnicos, falhas da tripulação e cultura organizacional inadequada


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O relatório final do CENIPA (Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos) sobre as causas do acidente aéreo com o voo 2283 da Voepass aponta uma série de irregularidades que contribuíram para a tragédia.

A apresentação durou quase 3 horas e apontou uma sequência de falhas que resultaram no acidente, como a presença de gelo severo, falhas no sistema de degelo, desconsideração de avisos críticos dentro da aeronave, falta de atenção na cabine, erros na tentativa de recuperação, problemas de manutenção e registros, falhas de segurança e fiscalização insuficiente.

A falta de eficiência no setor de manutenção e segurança da companhia é apontada como o principal motivo da queda da aeronave. No dia do acidente, nenhum componente simples estava funcionando.

O limpador de para-brisa, a investigação confirma uma falha no sistema de degelo da aeronave, ou seja, que remove o gelo das asas do avião. Segundo o CENIPA, esse problema era de conhecimento de pilotos e técnicos da Voepass, porque tinha sido constatado nos dois voos anteriores ao acidente. Um deles saiu de Ribeirão Preto para Guarulhos, mas não foi registrado no diário de bordo.

O excesso de gelo nas asas fez o avião perder força e altitude. A cultura organizacional da Voepass não permitiu que as falhas no sistema fossem registradas.

"Fatos aconteciam em voos, e isso com diferentes tripulações, porque eles levantaram muitos voos anteriores na investigação, e ficou comprovado que não havia registro. Aconteciam fatos e a tripulação não registrava, nem no manual de bordo nem em solo. Para que houvesse, então, uma correção, se não há registro, não tem o que corrigir", disse Adriana Ibba, mãe de Liz Ibba, vítima da tragédia.

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Ficou registrado que o copiloto disse ter esquecido de ligar o sistema de degelo.

Os pilotos estavam frequentemente desatentos durante o voo, ignoraram os alertas de risco da aeronave, menosprezaram os alertas de falhas e de queda de velocidade. O excesso de carga de trabalho da tripulação pode ter comprometido a capacidade de absorver os avisos do painel do avião sobre a perda de velocidade e a instabilidade do voo.

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A Voepass tinha a conduta de não reportar panes para o avião continuar voando. Na apresentação do relatório, o CENIPA revelou que houve situações em que a empresa pegava um componente de outra aeronave, sabidamente com falha, e colocava em outro avião. Ou então, usava um componente em pane que estava guardado e o instalava em uma aeronave.

Ficou claro que aquele avião não poderia ter sido liberado para voar, porque operava com diversos itens irregulares.

"É o que a gente já vinha falando. O relatório aponta 19 fatores, dos quais um dos mais importantes é aquela cultura criminosa daquela empresa. Eles investigaram 1.600 voos, investigaram outras tripulações e todos tinham o mesmo modo de operar, o que mostra que era uma cultura organizacional", afirmou Maria de Fátima Albuquerque, presidente da Associação Vítimas Voo 2283 Voepass.

O responsável pela investigação do CENIPA apontou que, antes do voo que partiu de Cascavel, a aeronave apresentava 10 itens com falhas.

O relatório também sugere que, apesar de a ANAC ter suspendido o uso de parte das aeronaves em 2023 e exigido o afastamento de técnicos da empresa, a fiscalização deveria ter sido mais rigorosa.

"Auditorias foram realizadas pela ANAC muito antes do dia 9 de agosto e nessas auditorias ficou comprovada a existência de irregularidades e da insegurança operacional da Voepass. Mas, mesmo assim, a agência não atuou, a agência não fez nada, não teve eficácia, não tomou uma atitude. Então, o documento, o relatório final do CENIPA, deixa bem claro que a recomendação para a agência é de que ela desenvolva um sistema interno para que haja autonomia e para que, de fato, o que é, na teoria, o papel da agência, aconteça na prática", relatou Adriana Ibba.

Em nota, a Voepass disse que "a queda do voo 2283, em 9 de agosto de 2024, foi o episódio mais difícil da história da VOEPASS. Desde o momento do acidente, a empresa esteve solidária às famílias das vítimas, compartilhando uma dor que permanece presente em sua memória.

Em mais de 30 anos de operações na aviação brasileira, a companhia jamais havia enfrentado uma situação como essa. Ao longo de três décadas, sempre adotou procedimentos sérios de segurança, capacitação e orientação de tripulação.

A atuação da empresa sempre esteve pautada em padrões internacionais de segurança, contando, inclusive, com a certificação IOSA desde 2012, um requisito de excelência operacional emitido apenas para empresas auditadas pela IATA.

A tripulação do voo 2283 era experiente, capacitada e devidamente certificada, acumulando mais de 5.000 horas de voo e com treinamentos técnicos e acompanhamentos de saúde rigorosamente atualizados, sem qualquer registro prévio ou fator que impedisse sua atuação.

Desde o início das apurações, a VOEPASS atua de forma transparente junto ao CENIPA e às autoridades públicas e segue à disposição de todas as instituições e agentes envolvidos para colaborar com o que for necessário".

A ANAC (Agência Nacional de Aviação Civil) afirmou que fará uma análise técnica detalhada das recomendações apresentadas no relatório final da investigação.

O voo 2283 da Voepass caiu na tarde de 9 de agosto de 2024 em um condomínio de Vinhedo, durante o trajeto entre Cascavel e Guarulhos. As 62 pessoas que estavam a bordo, sendo 58 passageiros e quatro tripulantes, morreram. As famílias das vítimas seguem lutando para que novos acidentes não aconteçam e para que a Justiça seja feita.

"Agora começa, de fato, a nossa luta, porque até então nós estávamos junto aos órgãos, o CENIPA e a Polícia Federal, buscando acompanhar as investigações. Elas concluídas, aí começa a nossa luta na busca, de fato, por justiça, mas também, principalmente, para salvar vidas, para que a gente possa prevenir, para que a gente possa usar a nossa dor para que essas tragédias, para que outras pessoas não estejam hoje no nosso lugar de dor, de lutar", disse Maria de Fátima.

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Confira mais detalhes no vídeo:

Reportagem Deivid Souza| Jornal da Catve

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