Ana Maria de Jesus Ribeiro, conhecida mundialmente como Anita Garibaldi, construiu uma trajetória marcada por batalhas, fugas e mudanças de país em um período de intensas disputas políticas no século XIX. Brasileira, ela participou da Revolução Farroupilha e, mais tarde, esteve ao lado do marido, Giuseppe Garibaldi, nas lutas pela unificação italiana. A história lhe rendeu o título de Heroína dos Dois Mundos.
Anita nasceu em 30 de agosto de 1821, nos arredores de Laguna, em Santa Catarina. Filha de Bento Ribeiro da Silva, conhecido como Bentão, e Maria Antônia de Jesus Antunes, cresceu em uma família numerosa. Após a morte do pai, ainda jovem, passou a ajudar a mãe nos cuidados com os irmãos enquanto enfrentava as dificuldades financeiras da família.
Em 1835, casou-se com Manoel Duarte de Aguiar. A vida dela mudou quatro anos depois, quando conheceu Giuseppe Garibaldi, um marinheiro italiano que havia chegado ao Brasil e se envolvido na Revolução Farroupilha, conflito iniciado em 1835 contra o governo imperial.
O encontro ocorreu em Laguna, durante a proclamação da República Juliana, em julho de 1839. Garibaldi participava das operações militares dos farroupilhas quando conheceu Ana Maria. Foi ele quem passou a chamá-la de Anita, nome pelo qual ela se tornaria conhecida.
Uma mulher no campo de batalha
A relação com Garibaldi levou Anita a uma vida distante dos costumes tradicionalmente atribuídos às mulheres da época. Ela passou a acompanhar as tropas e participou de combates durante a Revolução Farroupilha.
Em novembro de 1839, esteve ao lado de Garibaldi em uma batalha naval em Imbituba, no litoral catarinense. Meses depois, em janeiro de 1840, foi capturada pelas forças imperiais durante um confronto em Curitibanos.
Ao receber a notícia de que Garibaldi teria morrido, Anita pediu autorização para procurar o corpo entre os combatentes. Como não o encontrou, aproveitou um momento de distração dos soldados e fugiu a cavalo. Na sequência, atravessou a nado o Rio Canoas e conseguiu reencontrar o companheiro.
A fuga se tornou um dos episódios mais conhecidos de sua trajetória e ajudou a consolidar a imagem de uma mulher determinada, capaz de enfrentar situações extremas em meio à guerra.
Maternidade em meio aos conflitos
Em setembro de 1840, Anita deu à luz o primeiro filho do casal, Domênico Menotti Garibaldi, em Mostardas, no Rio Grande do Sul. A maternidade, porém, não a afastou das dificuldades impostas pelo conflito.
Poucos dias depois do nascimento da criança, tropas imperiais atacaram o local onde ela estava. Ainda debilitada após o parto, Anita fugiu a cavalo com o bebê nos braços para protegê-lo. Depois de um período de incerteza, Garibaldi conseguiu reencontrar a família.
Em 1841, Anita, Giuseppe e o filho deixaram o Rio Grande do Sul e seguiram para Montevidéu, no Uruguai. O casal oficializou o casamento em 26 de março de 1842.
Na capital uruguaia, a família cresceu. Além de Menotti, nasceram Rosita, Teresa e Ricciotti. A vida familiar, entretanto, continuou dividida com os conflitos políticos e militares. Rosita morreu ainda criança, em 1845, uma perda que marcou profundamente Anita.
Durante o período no Uruguai, Garibaldi voltou a atuar em campanhas militares, enquanto Anita também ajudava no cuidado dos feridos.
A travessia para a Europa
Em 1848, Anita e os filhos seguiram para a Europa, onde Giuseppe Garibaldi retomou a participação em movimentos ligados à unificação da Itália. Naquele período, a península italiana estava dividida em diferentes Estados e territórios, e grupos políticos e militares defendiam sua unificação.
Anita voltou a acompanhar o marido em meio às disputas. Em 1849, esteve envolvida nos acontecimentos relacionados à defesa da República Romana, experiência que exigiu novas viagens e deslocamentos em condições difíceis.
Mesmo grávida do quinto filho e com a saúde debilitada, ela permaneceu ao lado de Garibaldi durante parte da retirada das tropas. O marido tentou convencê-la a interromper a jornada para se recuperar, mas Anita insistiu em acompanhá-lo.
A morte na Itália
A trajetória de Anita terminou em 4 de agosto de 1849, nas proximidades de Ravenna, na Itália. Aos 27 anos, ela morreu durante a retirada das forças ligadas a Giuseppe Garibaldi, enquanto enfrentava problemas de saúde e as dificuldades da fuga.
Garibaldi estava com ela nos momentos finais. Anita deixou quatro filhos e uma história associada a conflitos que atravessaram o Brasil, o Uruguai e a Itália.
Em 1859, dez anos após a morte da esposa, Garibaldi voltou para buscar seus restos mortais. Ao longo dos anos, os restos de Anita foram transferidos diversas vezes. Atualmente, ela está sepultada sob um monumento na colina do Gianicolo, em Roma.
O legado de Anita Garibaldi
A importância histórica de Anita está ligada à participação em movimentos republicanos e às campanhas militares do século XIX. Em uma época em que a presença feminina nos campos de batalha era incomum, ela assumiu riscos, acompanhou tropas e participou diretamente de episódios decisivos de sua trajetória.
Sua história conecta dois momentos importantes: a Revolução Farroupilha, no sul do Brasil, e o processo de unificação italiana. Essa ligação entre continentes contribuiu para que Anita recebesse o título de Heroína dos Dois Mundos.
No Brasil, ela foi incluída no Livro dos Heróis e Heroínas da Pátria, no Panteão da Pátria e da Liberdade Tancredo Neves, em Brasília. Na Itália, também é lembrada como uma personagem importante da história nacional.
Mais do que a companheira de Giuseppe Garibaldi, Anita construiu uma trajetória própria, marcada pela participação em guerras, pela coragem diante das adversidades e pela decisão de permanecer ao lado das causas políticas em que acreditava.
Antonio Mendonça/ Catve
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