Em um dia como hoje, há 79 anos, um brasileiro assumia um dos cargos mais importantes da recém-criada Organização das Nações Unidas. Em 16 de setembro de 1947, o gaúcho Oswaldo Aranha foi eleito presidente da segunda Assembleia-Geral da ONU.
A escolha colocou o nome de um brasileiro no centro de um dos perÃodos mais importantes da diplomacia internacional no século XX. Pouco mais de dois meses depois, em 29 de novembro, Aranha presidiu a sessão que aprovou a Resolução 181, o plano de partilha da Palestina que previa a criação de um Estado judeu e de um Estado árabe.
A proposta recebeu 33 votos a favor, 13 contra e 10 abstenções, com o Brasil entre os paÃses favoráveis.
A resolução não criou diretamente Israel, mas abriu caminho para a formação do Estado. Em 14 de maio de 1948, Israel declarou sua independência.
Quem era o brasileiro que chegou ao comando da ONU?
Oswaldo Euclides de Souza Aranha nasceu em 15 de fevereiro de 1894, em Alegrete, no Rio Grande do Sul. Filho de uma tradicional famÃlia gaúcha, estudou Direito no Rio de Janeiro e se formou em 1916.
De volta ao Rio Grande do Sul, trabalhou como advogado e entrou na polÃtica. Em 1925, tornou-se intendente de Alegrete, função equivalente à de prefeito. Dois anos depois, foi eleito deputado federal.
A trajetória polÃtica o aproximou de Getúlio Vargas. Aranha participou das articulações da Aliança Liberal e esteve entre os nomes ligados à Revolução de 1930, que levou Vargas ao poder.
No novo governo, ocupou cargos importantes, incluindo os ministérios da Justiça e da Fazenda.
Da polÃtica brasileira para a diplomacia
Em 1934, Aranha iniciou uma nova etapa da carreira ao ser nomeado embaixador do Brasil nos Estados Unidos.
Quatro anos depois, voltou ao Brasil para assumir o Ministério das Relações Exteriores, cargo que ocupou entre 1938 e 1944.
Foi chanceler durante a Segunda Guerra Mundial e participou das articulações que aproximaram o Brasil dos Estados Unidos e dos paÃses aliados.
Depois de deixar o ministério, Aranha voltou ao cenário internacional em 1947, quando passou a chefiar a delegação brasileira na ONU.
O dia em que Aranha assumiu a Assembleia-Geral
A ONU havia sido criada apenas dois anos antes, em 1945, quando Aranha chegou ao centro da organização.
Em abril de 1947, ele já havia presidido uma sessão especial da Assembleia-Geral dedicada à questão da Palestina.
Meses depois, em setembro, seu nome voltou ao centro das atenções.
Em 16 de setembro de 1947, Aranha foi eleito presidente da segunda Assembleia-Geral ordinária da ONU, derrotando no segundo turno o australiano Herbert Evatt.
A eleição transformou o brasileiro no responsável por conduzir os trabalhos da Assembleia durante um perÃodo marcado por intensas disputas diplomáticas.
Dois meses depois, uma votação histórica
O principal desafio viria em novembro.
A ONU discutia o futuro da Palestina, então sob mandato britânico. A proposta apresentada previa a divisão do território em dois Estados, um judeu e outro árabe, enquanto Jerusalém teria um regime internacional.
Em 29 de novembro de 1947, Aranha presidiu a sessão que colocou o plano em votação.
O resultado foi:
A aprovação da Resolução 181 entrou para a história como um dos principais acontecimentos que antecederam a criação de Israel.
A votação não criou Israel naquele momento
Apesar da associação frequente entre Aranha e a criação de Israel, existe uma diferença importante.
A Resolução 181 não criou o Estado de Israel. Ela aprovou o plano de partilha da Palestina.
A independência de Israel seria declarada meses depois, em 14 de maio de 1948, por David Ben-Gurion.
O Estado árabe previsto na resolução, por sua vez, não foi estabelecido naquele momento.
O legado de Oswaldo Aranha
A atuação de Aranha na ONU fez com que seu nome permanecesse ligado à história de Israel e da diplomacia internacional.
Ele recebeu indicações ao Prêmio Nobel da Paz e também ficou associado a uma tradição brasileira que permanece na ONU: o Brasil costuma ser o primeiro paÃs a discursar na abertura anual da Assembleia-Geral.
Oswaldo Aranha morreu no Rio de Janeiro, em 27 de janeiro de 1960, aos 65 anos.
Setenta e nove anos depois de sua eleição para a presidência da Assembleia-Geral, o episódio continua sendo lembrado como um dos momentos em que a diplomacia brasileira ocupou uma posição de destaque em uma decisão que ajudaria a mudar o mapa polÃtico do Oriente Médio.
Antonio Mendonça/ Catve
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