Cotidiano

Há 65 anos, Jânio Quadros renunciava à Presidência e mergulhava o Brasil em crise

Renúncia ocorreu em 25 de agosto de 1961, após apenas sete meses de governo


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Há 65 anos, em 25 de agosto de 1961, o então presidente Jânio Quadros renunciava à Presidência da República, surpreendendo o Congresso Nacional, aliados e a população brasileira. O governo, que deveria durar cinco anos, terminou antes de completar sete meses.

A decisão foi comunicada por meio de um bilhete encaminhado ao Congresso Nacional. Documentos históricos do Arquivo do Senado mostram que até parlamentares da base governista foram pegos de surpresa. Um deles, o senador Lino de Mattos, chegou a tentar impedir que o documento fosse entregue, mas foi informado de que cópias já haviam sido distribuídas à imprensa.


Segundo historiadores citados pelo Arquivo do Senado, a renúncia fazia parte de uma estratégia de Jânio Quadros para retornar ao poder com mais autoridade. A expectativa seria de que o Congresso, as Forças Armadas e a população rejeitassem a saída e pressionassem pela sua volta. Nesse cenário, o presidente poderia exigir poderes superiores aos previstos pela Constituição de 1946.

O plano, no entanto, não funcionou. O Congresso aceitou a renúncia e passou a discutir a posse do vice-presidente João Goulart, que estava em missão oficial na China. A possibilidade de Jango assumir provocou forte reação entre setores das Forças Armadas, que temiam a aproximação do Brasil com movimentos de esquerda.

A crise chegou a colocar o país à beira de uma guerra civil. O governador do Rio Grande do Sul, Leonel Brizola, chegou a ameaçar pegar em armas para garantir o cumprimento da Constituição e a posse de Jango.

Para evitar um conflito, parlamentares negociaram uma solução política. O Brasil adotou temporariamente o parlamentarismo, reduzindo os poderes presidenciais de João Goulart. Com o acordo, as Forças Armadas aceitaram sua posse e a crise foi encerrada cerca de duas semanas após a renúncia. Em 1963, um plebiscito determinou a volta do presidencialismo.

Uma renúncia cercada de controvérsias

Na carta enviada ao Congresso, Jânio justificou a saída de forma vaga. Disse que havia tentado combater a corrupção, mas teria sido "vencido pela reação" e "esmagado" por "forças terríveis". Até hoje, não existe uma explicação definitiva apresentada pelo ex-presidente para a renúncia.

O historiador Felipe Loureiro, especialista nos governos de Jânio Quadros e João Goulart, avalia que, embora todos os detalhes do plano não sejam conhecidos, a intenção de promover um autogolpe existia. Jânio teria acreditado que sua força pessoal junto ao eleitorado permitiria governar sem depender dos partidos políticos ou do Congresso.

A estratégia, porém, encontrou obstáculos. Jânio não possuía uma estrutura partidária sólida capaz de mobilizar seus apoiadores em todo o país e também não conseguiu estabelecer uma relação estável com as Forças Armadas.

O que aconteceu depois

A renúncia de 1961 teve consequências que ultrapassaram a crise daquele momento. Três anos depois, em 1964, os mesmos militares que haviam resistido à posse de João Goulart participaram da derrubada do presidente e da instalação de uma ditadura militar que duraria 21 anos.

Depois de deixar a Presidência, Jânio Quadros ainda tentou retornar à política. Em 1962, candidatou-se ao governo de São Paulo, mas não foi eleito. Durante a ditadura, teve os direitos políticos cassados e voltou à vida política em 1986, quando venceu Fernando Henrique Cardoso e assumiu a Prefeitura de São Paulo.

Jânio Quadros morreu em 1992, aos 75 anos, sem apresentar uma explicação considerada convincente para a renúncia que, 65 anos depois, continua sendo um dos episódios mais controversos da história política brasileira.

Antonio Mendonça/ Catve

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