Cotidiano

Dois anos depois, famílias mantêm luta por justiça e memória das vítimas

A saudade permanece na rotina dos familiares, que mantêm viva a memória das 62 vítimas


Catve

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No dia 9 de agosto de 2024, o Brasil parou diante de uma das maiores tragédias da aviação nacional. A queda do voo 2283 da Voepass matou 62 pessoas e deixou marcas que o tempo não apagou. Dois anos depois, familiares transformam a saudade em uma luta permanente por respostas, justiça e pela preservação da memória de quem partiu.

Dois anos, ou 730 dias, se passaram desde que a queda do voo interrompeu dezenas de histórias. Para quem ficou, porém, o tempo nunca apagou a ausência.

As roupas que voltaram na bagagem guardam os últimos vestígios de Ana Carolina Redivo. A mãe, Elisabeth Redivo, relembra a filha ao ver as fotos da viagem em família, os vídeos publicados pela nutricionista e os livros retirados recentemente do apartamento onde ela morava.

Ela descreve a perda como uma dor permanente.

"É uma amputação, mas não é uma amputação de um órgão. É uma amputação da alma. Até fala: tem órfão, tem viúva, mas e mãe e pai? Como é que chama? Eu, esses dias, falei: é uma pessoa amputada. Mas não é um órgão que você se adapta a conviver sem ele. Essa falta a gente nunca vai conseguir tampar, adaptar", disse Elisabeth.

Com o passar do tempo, o luto também muda de forma. Depois do choque e da incredulidade, a dor dá lugar à memória. Seja em uma joia com a foto da filha, em um livro escrito para manter a história viva ou em uma vela acesa todos os dias, cada família encontrou uma forma de seguir sem esquecer quem ama.

"Ela vivia com o V maiúsculo. Era uma pessoa que sabia viver e tinha vontade de viver. Então é isso que eu tento fazer hoje em dia. Tentar me inspirar um pouco nela, viver com o V maiúsculo que ela vivia. Viver muito bem a vida", disse Luíza Esteves Santos, filha de Adriana Dalfovo dos Santos.

Adriana Ibba, mãe da Liz Ibba, conta que tenta levar a presença da filha no dia a dia.

"Eu falo agora que eu tenho um anjo da guarda particular. Todos os dias, quando eu acordo, eu acabo acendendo uma velinha", disse Adriana.

Ela afirma que a dor não diminui com o tempo. "Não é fácil. Eu estou aqui lutando por ela", completou.

Fátima Albuquerque, mãe de Arianne Albuquerque Risso diz que o tempo só piora, fazendo com que ela fique mais desesperada.

"Não existe reparação. Não existe superação. A única luta que a gente tem é criar um novo propósito de continuar cuidando dela".

Foi assim que surgiram os livros e projetos em homenagem à filha.

NOVOS PAPÉIS APÓS A TRAGÉDIA

A vida também exigiu novos papéis. Eduarda Hubner perdeu o pai e a mãe no acidente, Gracinda Marina e Nélvio Hubner. Além de enfrentar o próprio luto, passou a ajudar nos cuidados com a irmã mais nova.

"As pessoas falam muito 'siga em frente'. Mas seguir em frente é justamente você enfrentar o luto e respeitar aquilo que você está sentindo, para que aí você consiga seguir em frente. O luto é algo que vai com você. Você carrega ele junto e vai tentando criar uma nova vida a partir daquilo. E é um processo que é demorado mesmo", disse.

O ACIDENTE

No dia 9 de agosto de 2024, 58 passageiros partiram de Cascavel com destino a Guarulhos. A aeronave transportava ainda quatro tripulantes.

O voo decolou às 11h58. Às 13h18 comunicou para a torre de aproximação em São Paulo que estava no ponto ideal de descida, faltava pouco para o destino, mas o avião não pousou. Às 13h20, o alerta de stall foi ativado na cabine. Na sequência, a aeronave perdeu a sustentação e, às 13h22, caiu em Vinhedo, no interior de São Paulo. A queda durou cerca de um minuto e 21 segundos, desde a perda de controle até o impacto.

Dois anos depois, as famílias seguem aguardando decisões da Justiça. Para quem perdeu alguém no voo 2283, a dor continua presente na rotina e na luta para que tragédias como essa não voltem a acontecer.

RELATÓRIO FINAL APONTA FALHAS OPERACIONAIS E DE MANUTENÇÃO

O relatório final do Cenipa (Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos) concluiu que o desastre teve contribuição de fatores operacionais e humanos.

Entre os pontos destacados estão a falha no sistema de degelo da aeronave, a previsão de gelo severo na rota e o fato de o voo ter decolado com dez itens inoperantes, sendo um deles classificado como impeditivo para voo.

O documento também aponta falta de eficiência nos setores de manutenção e segurança da companhia como principal motivo da queda.

Segundo o relatório, a empresa não reportou um evento anterior de perda de controle em voo envolvendo a mesma aeronave. A análise de mais de mil voos do avião identificou falhas recorrentes, problemas de manutenção e uma cultura de normalização de desvios operacionais.

FAMÍLIAS COBRAM RESPONSABILIZAÇÃO

Agora, a expectativa das famílias está voltada para a Justiça.

"A gente vai lutar para que a Justiça não cometa os erros que ela cometeu quando suspendia as sanções que a ANAC dava. A ANAC poderia ter colocado aquele avião antes no chão, mas também nessa roda está a Justiça. Quando ela suspendia as sanções e as multas, a empresa passou a nem ter medo das fiscalizações. Então é preciso que a Justiça entenda que ela está ali para praticar justiça, e não impunidade", destaca Fátima Albuquerque.

Adriana Ibba afirma que o relatório trouxe clareza sobre as responsabilidades.

"Ficou muito explícito para mim e para todas as famílias que estavam naquele dia ali que foi um crime cometido. Até o Cenipa apontou todos os erros e os crimes cometidos pela empresa e também pela falha da fiscalização da ANAC", disse.

Ela reforça que hoje a principal missão das famílias é buscar justiça aos que estão vivos.

"Tem que ter responsabilização, tem que responder. Não tem dinheiro que pague a nossa dor, mas as pessoas têm que responder", destaca Elisabeth.

Eduarda Hubner também destaca a indignação diante do que considera uma sequência de negligências.

A SAUDADE PERMANECE

Dois anos depois, o voo 2283 continua presente na vida de quem ficou. O tempo não apaga a saudade, mas transforma a dor em memória, em luta por justiça e na certeza de que cada uma das 62 vidas perdidas jamais será esquecida.

"Que a gente comece a olhar para as situações avaliando sempre o potencial de risco e não apenas aquilo que aconteceu. Que a gente consiga ter mais responsabilidade, olhar para o nosso papel, sem querer lavar as mãos, e talvez evitar que situações como essa voltem a acontecer", completou Eduarda.

Confira os detalhes no vídeo acima.



Reportagem Isabela de Oliveira | Jornal da Catve

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