Cotidiano

Jô Soares: 4 anos de ausência, uma eternidade de risos e entrevistas inesquecíveis

O humorista partiu, mas deixou um legado que atravessa a televisão, o teatro, o cinema e a literatura


PUBLICIDADE

Nesta quarta-feira (5), completa-se um ciclo de quatro anos desde que o Brasil se despediu de José Eugênio Soares. O icônico apresentador e humorista faleceu em 5 de agosto de 2022, em São Paulo, aos 84 anos, encerrando uma trajetória artística que se estendeu por mais de sessenta anos e atravessou múltiplas linguagens — da TV ao teatro, do cinema à literatura, sem esquecer a música e as artes plásticas.

Mais do que um rosto familiar nas noites brasileiras, Jô Soares foi um mestre na arte da conversa. Sua habilidade em transitar do humor refinado à entrevista profunda, sempre com uma curiosidade genuína, fez dele uma figura ímpar na comunicação do país. Ele não apenas entrevistou; ele dialogou com o Brasil.

Origens entre o luxo e o mundo

Nascido em 16 de janeiro de 1938, no Rio de Janeiro, Jô teve uma infância atípica. Morou com a família em um anexo do luxuoso Copacabana Palace, um cenário que contrastava com a irreverência que viria a marcar sua carreira.

Ainda jovem, viajou para os Estados Unidos e Europa, experiências que ampliaram seu repertório cultural e o tornaram poliglota. Por um tempo, a diplomacia chegou a ser uma possibilidade, mas o destino, bem-humorado, reservava-lhe outro ofício.

O humor que virou fenômeno

Sua estreia na televisão ocorreu ainda nos anos 1950, mas foi em 1981, na TV Globo, que Jô alcançou o estrelato com o programa Viva o Gordo. O humorístico foi um sucesso estrondoso e consagrou personagens que se tornaram antológicos, como o Capitão Gay, o Reizinho e o Zé da Galera.

Em meio às gargalhadas, Jô também usava o humor como ferramenta de crítica social e política, numa época em que o país ainda respirava os últimos anos da ditadura militar. Sua coragem e inteligência afiadas garantiam ao público não apenas entretenimento, mas também reflexão.

A revolução do sofá

Em 1988, Jô trocou a Globo pelo SBT e apresentou o Jô Soares Onze e Meia, um programa que ajudou a consolidar o formato de talk show no Brasil. Longe do estrelismo, ele criava um ambiente acolhedor onde celebridades, anônimos, políticos e intelectuais se sentavam para longas e memoráveis conversas.

Uma curiosidade pouco conhecida: para o programa, Jô aprendeu a tocar trompete, integrando o sexteto musical que animava a atração.

O retorno à Globo e o recorde de entrevistas

Em 2000, Jô voltou à Globo para comandar o Programa do Jô, que ficou no ar por 16 anos e se tornou uma referência absoluta no gênero. Ao todo, entre o SBT e a Globo, Jô acumulou 28 anos dedicados a entrevistas. Segundo o documentário Um Beijo do Gordo, ele realizou 14.426 entrevistas — um número que traduz sua paixão por ouvir e contar histórias.

O palco do programa foi visitado por lendas como Pelé, Roberto Carlos, Hebe Camargo e Renato Aragão. Mas Jô também tinha um olhar atento para novos talentos. O caso mais emblemático é o de Fábio Porchat, que, ainda adolescente e na plateia, pediu para mostrar uma cena. Jô gostou e o elogiou publicamente — um gesto que abriu portas para o jovem humorista.

A despedida emocionante

Em dezembro de 2016, o Programa do Jô chegou ao fim. Para o derradeiro episódio, Jô convidou seu amigo e cartunista Ziraldo, que detinha o recorde de participações: 24 vezes no sofá do apresentador. O reencontro foi carregado de afeto e simbolizava o encerramento de uma era.

Um artista multimídia

Fora das telas, Jô Soares era um inquieto criador. Escreveu romances de sucesso como O Xangô de Baker Street (1995), O Homem que Matou Getúlio Vargas (1998) e As Esganadas (2011). Também atuou no cinema, dirigiu peças, pintou e manteve uma biblioteca pessoal invejável em seu apartamento em Higienópolis, São Paulo.

A vida em Higienópolis

Mudou-se para o bairro nobre da capital paulista em 1991. Com o tempo, adquiriu outro imóvel no mesmo edifício para servir de estúdio de ensaios. Para conectar os dois apartamentos, instalou um elevador panorâmico dentro de casa — uma das muitas peculiaridades reveladas no documentário Um Beijo do Gordo.

A vida pessoal entre amores e perdas

Jô casou-se três vezes. Com a atriz Teresa Austregésilo, teve seu único filho, Rafael, que era autista e faleceu em 2014, aos 50 anos. A relação com Rafael era um dos capítulos mais sensíveis e privados de sua vida.

Depois, foi casado com Sílvia Bandeira e, por fim, com Flávia Pedras, com quem se divorciou em 1998, mas manteve uma amizade duradoura. Anos mais tarde, Flávia revelou que parte dos bens de Jô foi destinada a instituições que acolhem pessoas com autismo, uma homenagem direta à memória do filho.

Números que impressionam, legado que emociona

O documentário Um Beijo do Gordo também trouxe números expressivos: cerca de 1.300 dias dedicados a programas humorísticos, 300 personagens criados e nove livros publicados.

No entanto, a grandeza de Jô Soares não se mede apenas por estatísticas. Ele foi um pioneiro que redefiniu o humor na TV brasileira, criou um espaço democrático para a entrevista e ensinou gerações a valorizar a conversa como forma de arte.

4 anos de saudade

Na madrugada de 5 de agosto de 2022, Jô Soares faleceu no Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo. Quatro anos depois, sua ausência ainda ecoa, mas sua presença permanece viva em cada personagem, em cada entrevista disponível nas plataformas e em cada leitor que descobre seus livros.

Seu maior legado talvez seja a capacidade de nos fazer rir, pensar e ouvir. Um artista completo que, com seu talento e inteligência, se tornou um dos grandes comunicadores que o Brasil já conheceu.

Antonio Mendonça/ Catve

** Envie fotos, vídeos, denúncias e reclamações para a equipe Portal CATVE.com pelo WhatsApp (45) 99982-0352 ou entre em contato pelo (45) 3301-2642

Últimas notícias de Cotidiano