Faltando poucos dias para o acidente com o voo 2283 da Voepass completar dois anos, em 9 de agosto, o relatório final do Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa) traz uma série de informações sobre o ocorrido.
Um dos apontamentos confirma que a aeronave apresentou falha no sistema de degelo no dia anterior ao acidente e também no voo que saiu de Ribeirão Preto para Guarulhos, antes de seguir de São Paulo para Cascavel. De acordo com o relatório, essas falhas não foram registradas no diário de bordo. A investigação concluiu ainda que a cultura organizacional da Voepass não permitia que esses problemas fossem reportados, já que os pilotos menosprezavam os alertas de falhas e de perda de velocidade da aeronave.
O documento também aponta falhas na supervisão de manutenção da empresa e sugere que, embora a Agência Nacional de Aviação Civil (ANAC) tenha suspendido parte da frota da Voepass em 2023 e determinado o afastamento de técnicos da empresa, a fiscalização não foi suficientemente rigorosa.
"Fatos aconteciam em voos, e isso com diferentes tripulações, porque eles levantaram muitos voos anteriores na investigação e ficou comprovado que não havia registro. Aconteciam fatores e a tripulação não registrava, nem no manual de bordo e nem no solo. Para que houvesse então uma correção, se não há registro, não tenho o que corrigir" afirmou Adriana Ibba, mãe de Liz Ibba.
O relatório também revela que o voo 2283 foi liberado para operar com dez itens irregulares, entre eles o limpador de para-brisa sem funcionamento. Segundo a investigação, a aeronave não deveria ter decolado nas condições meteorológicas daquele dia, uma sexta-feira marcada por temperaturas muito baixas em boa parte do país.
As gravações da caixa-preta mostram ainda que piloto e copiloto conversavam sobre assuntos pessoais durante o voo. Em um dos trechos, o copiloto relata ter esquecido de ligar o sistema de degelo da aeronave.
Outro fator destacado foi o excesso de carga de trabalho da tripulação, situação que comprometeu a capacidade de perceber e reagir aos alertas do painel sobre perda de velocidade e estabilidade da aeronave. O relatório também volta a citar falhas da ANAC na fiscalização da Voepass.
"Auditorias foram realizadas pela ANAC muito antes do dia 9 de agosto e nessas auditorias ficou comprovado das irregularidades e da insegurança operacional da Voepass. Mas mesmo assim a agência não atuou, a agência não fez nada, não teve uma eficácia, não tomou uma atitude. Então, no relatório final do Cenipa, o Cenipa deixa bem claro que a recomendação para a agência é de que a agência desenvolva um sistema interno para que haja uma autonomia e para que, de fato, o que é na teoria o papel da agência, na prática isso aconteça. 'Opa, está irregular isso aqui? Vamos suspender a operação dessa empresa" explicou Adriana Ibba, mãe de Liz Ibba.
Reportagem de Leandro Souza | EPC - ESPORTE, POLÍTICA E CIDADANIA
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