Cotidiano

Alô, alô, Terezinha! Há 38 anos, o Brasil se despedia do Velho Guerreiro, o eterno Chacrinha

Abelardo Barbosa faleceu aos 70 anos de idade e deixou um vazio insubstituível na história da televisão


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Se estivesse vivo hoje, neste dia 30 de junho de 2026, o maior comunicador da história da televisão brasileira estaria prestes a completar 108 anos de idade. No entanto, a trajetória terrena de José Abelardo Barbosa de Medeiros foi interrompida exatamente há 38 anos, em 30 de junho de 1988, quando ele faleceu aos 70 anos, vítima de um infarto do miocárdio e de insuficiência respiratória em decorrência de um câncer de pulmão.


O tempo passou, o milênio virou, mas a cultura pop nacional nunca esqueceu o grito que parava o país: "Alô, alô, Terezinha!". Chacrinha, apelidado carinhosamente por Gilberto Gil como o "Velho Guerreiro", transformou a comunicação de massa e moldou o DNA do entretenimento no Brasil.

Uma Revolução Nascida no Interior de Pernambuco

Nascido em Surubim, Pernambuco, em setembro de 1917, Abelardo chegou a cursar alguns anos da Faculdade de Medicina, mas a sua real vocação era o barulho das massas. Aos 20 anos, iniciou sua história como locutor na Rádio Club de Pernambuco. Após uma passagem curiosa como baterista em um navio rumo à Europa, desembarcou no Rio de Janeiro.

Foi em 1943, na Rádio Clube Niterói, que lançou o programa de marchinhas carnavalescas Rei Momo na Chacrinha. O sucesso foi tamanho que o local de transmissão (uma pequena chácara) acabou batizando o artista. Dali nascia o mitológico Cassino do Chacrinha.

Do Kitsch à Apoteose: A Consagração na TV

Se o rádio lhe deu a voz, a televisão lhe deu as cores (e que cores!). Estreou na TV Tupi em 1956, passando por quase todas as grandes emissoras do país, mas fazendo história definitiva na Rede Globo a partir de 1967.

Os programas do Velho Guerreiro eram um exercício semanal de absoluto caos controlado:

Concursos de Calouros: Onde o apresentador impiedosamente acionava uma buzina de mão estridente para desclassificar os candidatos desafinados.

Grandes Lançamentos Musicais: Ele abria as portas para todo mundo — da Jovem Guarda de Celly Campello ao Rock Brasil dos anos 1980, passando pelo brega e pelo povão.

Arremesso de Alimentos: Como esquecer o apresentador jogando bacalhaus, abacaxis, pepinos e farinha diretamente para a plateia histérica?

As Chacretes e os Figurinos Espalhafatosos

Chacrinha quebrou a rigidez da televisão da época. Trocou os ternos formais por cartolas, gravatas gigantescas, óculos coloridos e fantasias completas que iam de noiva a Mulher-Maravilha.

Para completar o espetáculo, o palco era dominado pelas Chacretes, dançarinas com coreografias marcantes e codinomes exóticos como Rita Cadillac. No corpo de jurados, figuras que se tornaram lendas da TV — como Elke Maravilha, Aracy de Almeida, Rogéria e Carlos Imperial — ajudavam a ditar o tom debochado da atração.

Os Bordões que Viraram Ditados Populares:

"Alô, alô, Terezinha!"

"Quem não se comunica, se trumbica!"

"Na TV nada se cria, tudo se copia."

"Eu vim para confundir e não para explicar!"

Os Bastidores e o Enfrentamento à Censura

Por trás do brilho das lantejoulas e da buzina espalhafatosa, Abelardo Barbosa era um homem profundamente complexo. Em seus últimos anos de vida, na década de 1980, o apresentador enfrentou crises severas de depressão e travou batalhas públicas ferozes contra o jabá (a cobrança ilegal para a execução de músicas nas rádios).

Seu comportamento anárquico e o teor sensual de seu programa também o transformaram em um alvo constante da Censura Federal durante a Ditadura Militar. Os censores vigiavam de perto as piadas de duplo sentido e proibiam que as câmeras focassem certas partes dos corpos das chacretes, arrancando protestos indignados e formais por parte do comunicador.

O Legado Imortal da Buzina

Em junho de 1988, com a saúde visivelmente debilitada pelo câncer, Chacrinha começou a contar com o apoio do humorista João Kléber para conduzir o programa. Sua última gravação foi ao ar em 2 de junho daquele ano. Pouco menos de um mês depois, o Velho Guerreiro saía de cena de forma definitiva.


Ainda hoje, em 2026, produções como o documentário "Chacrinha - Eu vim para confundir e não para explicar" e as séries biográficas estreladas por Stepan Nercessian e Eduardo Sterblitch mantêm viva a memória desse gênio. Trinta e oito anos após o seu silêncio, o veredito do público continua o mesmo: a história da televisão brasileira se divide entre o que aconteceu antes e o que aconteceu depois de Abelardo Barbosa.

Antonio Mendonça/ Catve

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