Cotidiano

13 de março de 1996 - 30 anos por Jorge Guirado


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O dia 13 de março de 1996, uma quarta-feira, começou bem.

Muito bem.

Logo pela manhã, eu e Tito Muffato fizemos uma ligação para Londrina. Do outro lado da linha estava José Eduardo Vieira, na sede da Folha de Londrina. A conversa era direta e objetiva: estávamos fechando a compra da TV Londrina com o "Zé do Chapéu", dono do Bamerindus.

Era um negócio importante, tratado havia algum tempo e disputado também por um empresário de Curitiba. Mas, naquela manhã, a negociação finalmente se encaminhava para o final — e para o nosso lado.

Por volta das 11 horas, Tito acertou os últimos detalhes do pagamento. Ficou combinado que o Zé do Chapéu enviaria por fax, um pré-contrato já assinado.

Esperamos.

O fax não chegava.

Perto do meio-dia, Tito começou a ficar impaciente. Ele era metódico com seus horários. Almoçava sempre em casa, logo depois das 12 horas. Olhou o relógio, levantou-se e disse que iria embora.

Saiu da sala e foi em direção ao estacionamento.

Eu ainda precisava da assinatura dele. Sabia que naquela tarde ele viajaria para Porto Murtinho, passando antes por Foz do Iguaçu.

Foi então que, já perto do meio-dia, finalmente chegou o fax.

Peguei o documento e corri para o estacionamento, que ficava nos fundos da Tarobá. Consegui alcançá-lo quando ele já estava saindo.

Tito parou o carro.

E com o documento sobre o capô, ele assinou ali mesmo, com pressa, como quem resolve mais um compromisso do dia.

Depois disso ele entrou no carro e foi embora.

Foi a última vez que o vi.

Voltei para a sala satisfeito. Chamei dois ou três colegas para comemorar. Afinal, depois de tanta negociação, tínhamos conseguido fechar o negócio.

A TV Londrina inaugurei pouco tempo depois, em 26 de junho de 1996, com a transmissão de Alemanha x Inglaterra, pela Eurocopa. Naquele dia, durante a narração, Luciano do Valle fez uma menção ao Tito. Pouco tempo depois mudamos o nome para Tv Tarobá.

Mas naquele 13 de março o destino tinha outros planos.

Por volta das três da tarde, o telefone tocou.

Era Hermínio Vieira, cunhado do Tito e também sócio do grupo.

Do outro lado da linha, a voz vinha preocupada:

"Jorge, estou aqui no aeroporto esperando o Tito me pegar para irmos pescar e ele não chega. Agora há pouco ouvimos um barulho muito forte aqui… parece que caiu um avião. Você pode ver o que aconteceu?"

Liguei imediatamente para a torre de controle do aeroporto.

A resposta veio rápida e pesada.

Um avião havia caído.

O helicóptero já tinha sido enviado para verificar.

E, pelo que estavam ouvindo no rádio… não havia sobreviventes.

Repeti a informação ao Hermínio.

Do outro lado da linha, ele desabou em choro.

Coincidentemente, naquele momento tínhamos uma equipe da TV no aeroporto para produzir outra reportagem. A repórter Cleusa Moraes e o cinegrafista Armando Martins foram até o local fazer as imagens e enviá-las a nós.

Na sala, eu e Paulo Martins assistíamos tudo sem reação.

Em choque.

Duvidas de quem estava ou não no avião. Se os meninos tinham ido ou não. Eu sabia que tinham ido ao aeroporto.

 Se alguém das famílias já sabia ou não.

Ficamos paralisados.

Travamos.

Só fomos dar a notícia na TV depois que a GLOBO fez um plantão do Jornal Nacional para todo o Brasil.

Naquele acidente, perdemos quatro amigos.

Sérgio Gasparetto

Nem era para ele estar naquele voo. Foi convencido por Itagiba na noite anterior, durante o jantar depois da tradicional pelada na gráfica. Gasparetto era companheiro dessas peladas, dos almoços em sua chácara e, por influência dele, inclusive, eu seria seu vizinho de apartamento.

Carlito Doro

O piloto. Experiente, prudente, daqueles que não arriscavam. Viajei muitas vezes com ele para transmissões de jogos e também em viagens de férias. Certa vez indo para Balneário com a família a bordo O tempo fechou na serra e ele decidiu pousar em Curitiba. Preferiu esperar o tempo melhorar para que não sofrêssemos com turbulência

E enquanto o tempo não melhorou, não saímos — mesmo já tendo percorrido mais da metade da viagem.

Itagiba Fortunato

Um dos meus melhores amigos. Amigo de verdade, daqueles do peito. Companheiro de anos nas peladas de terça e quinta na Gráfica, na Delfim, nos campeonatos do Areião do Country, do Tuiuti, nas feijoadas e nas pescarias. Sempre pensei que Itagiba teria sido prefeito de Cascavel. Era agregador, conciliador, tinha o dom de unir as pessoas.

Tito Muffato

Mais do que patrão, um amigo.

Duas semanas antes tinha ido a Balneário para pagar o imóvel que o Gasparetto havia me indicado. Pescamos juntos várias vezes no Toroquá e em Ayolas, no Paraguai. Passamos 30 dias juntos na Copa do Mundo do México e, nos intervalos dos jogos, viajamos por vários lugares.

Tito era um homem reservado, sisudo, sério.

Aos poucos fui enturmando ele no grupo da Gráfica.

E foi difícil escalá-lo no time.

"Jogava muito"… sqn

Aquele 13 de março foi um dia duro. Muito duro.

Vieram os velórios, transmissão da Missa ao vivo na TV, celebrada pelo também saudoso padre Grapégia, ao lado do padre Sandro. Receber os políticos de todas as bandeiras que vieram prestar suas homenagens.

Um fato marcante. No dia do enterro, a cidade parou.

Era impossível não se emocionar ao ver, durante o cortejo, as portas dos estabelecimentos meio abertas e as pessoas aplaudindo a passagem dos carros funerários.

Uma despedida silenciosa.

Respeitosa.

Marcante.

Trinta anos se passaram.

E cada um deles, à sua maneira, continua fazendo muita falta em Cascavel.

" há amigos mais chegados que irmãos " - provérbios 18:24



Foto: meu aniversário de 1996.  Tito, Herminio, Silvio Luiz, João Milanez







Foto: Eu, Tito e Herminio na CBS em Los Angeles/USA




Foto: Itagiba me entregando presente no aniversário de 1996


Foto: Itagiba Fortunatto e Sergio Gasparetto com os amigos das peladas na Gráfica.




Texto de Jorge Guirado

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