A facilidade de acesso às apostas on-line tem ampliado a preocupação com a ludopatia, também conhecida como transtorno do jogo patológico ou vício em apostas. O problema, que pode comprometer a saúde mental, as relações familiares e a estabilidade financeira, tem atingido pessoas cada vez mais jovens. O alerta é do médico psiquiatra Dr. Edivarley Rodrigues da Costa Junior, que atua em Toledo, é mestre em Psiquiatria e Psicologia Médica pela Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP) e professor universitário.
O especialista explica que a compulsão por jogos não é um fenômeno novo, mas ganhou outra dimensão com a popularização das plataformas digitais. "Se, no passado, os casos eram frequentemente associados a pessoas entre 30 e 40 anos, atualmente há preocupação também com adolescentes".
De acordo com o psiquiatra, a ludopatia apresenta características semelhantes às observadas em outros transtornos relacionados à dependência, com potencial de provocar consequências graves. "A principal diferença no cenário atual é a facilidade de acesso; o ambiente de apostas está disponível a qualquer momento, diretamente no celular. Você carrega o cassino com você", afirma o especialista ao explicar como a tecnologia aproxima o jogo da rotina das pessoas e pode favorecer a repetição do comportamento compulsivo.
Adrenalina e busca pela recuperação do dinheiro perdido
Ele esclarece que um dos aspectos importantes para compreender a ludopatia é que a motivação para continuar apostando nem sempre está relacionada à possibilidade de ganhar dinheiro.
O médico salienta que a expectativa, a tensão e a descarga de adrenalina provocadas pela possibilidade de ganhar ou perder podem alimentar o comportamento. "Quando perde, a pessoa pode desenvolver a necessidade de recuperar o dinheiro, entrando em um ciclo de novas apostas. A ideia de que é possível reverter o prejuízo torna-se um dos fatores que mantêm o indivíduo preso ao jogo".
O psiquiatra ainda pontua que essa dinâmica pode levar a perdas sucessivas e ao agravamento da compulsão. "Em situações mais graves, as consequências ultrapassam o patrimônio da própria pessoa e atingem toda a família. Existem casos de destruição financeira, comprometimento dos bens dos pais e até furtos para sustentar o comportamento".
Mudança de comportamento
Apesar da gravidade, a ludopatia tem tratamento. Segundo o psiquiatra, a recuperação exige estratégias que vão além da simples interrupção das apostas. "É necessário construir novos hábitos, modificar padrões de comportamento e identificar possíveis comorbidades psiquiátricas, que podem estar associadas ao transtorno".
A terapia cognitivo-comportamental é apontada pelo especialista como uma das principais abordagens terapêuticas, por auxiliar o paciente a reconhecer os gatilhos, rever pensamentos associados ao jogo e desenvolver formas mais saudáveis de lidar com emoções e situações de risco.
O médico enfatiza a importância do acompanhamento profissional e da participação da família durante o processo. "Assim como ocorre em outros transtornos relacionados à dependência, interromper o comportamento sem oferecer suporte pode tornar a recuperação mais difícil".
Outro ponto destacado pelo psiquiatra é a relação entre vulnerabilidade econômica e dependência de jogos. Segundo ele, pessoas em situação de maior pobreza podem estar mais expostas aos impactos da compulsão, especialmente quando as apostas passam a ser vistas como uma possibilidade de melhorar rapidamente a condição financeira.
O especialista também chama a atenção para os relatos de sofrimento intenso entre pacientes que procuram atendimento. "Em alguns casos, a busca por ajuda ocorre quando a pessoa já enfrenta perdas financeiras severas ou está em uma situação de desespero emocional, incluindo risco ou tentativa de suicídio".
Ele finaliza que a ludopatia é um transtorno que exige cuidado, acompanhamento e compreensão. Quanto mais cedo o problema for identificado, maiores serão as possibilidades de interromper o ciclo de apostas e reduzir os danos à saúde, às finanças e às relações familiares.
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