Uma importante discussão sobre os efeitos das mudanças no comportamento do clima acontece nesta sexta-feira (4), em Toledo. O município, primeiro do interior do Paraná a receber o Smart Climate City, projeto de inteligência climática desenvolvido pelo Sistema de Tecnologia e Monitoramento Ambiental do Paraná (Simepar), em parceria com a empresa suíça Meteoblue, também sedia o painel "El Niño - cenários e impactos para a região".
A atividade é conduzida pelo meteorologista do Simepar Leonardo Zucini Furlan, que chama a atenção para um fenômeno que já está influenciando as condições atmosféricas: o El Niño.
De acordo com Furlan, o fenômeno é caracterizado pelo aquecimento anormal das águas do Oceano Pacífico Equatorial. "Esse aquecimento provoca alterações na circulação atmosférica e pode modificar significativamente o regime de chuvas e temperaturas em diferentes regiões".
No Paraná, os efeitos já começam a ser percebidos. Conforme o meteorologista, há registro de chuvas mais frequentes, temperaturas acima da média e maior possibilidade de episódios de chuva intensa e temporais. "O El Niño já está atuando. Nada mais é do que um aquecimento anormal das águas do Oceano Pacífico Equatorial. Em função desse aquecimento, a circulação atmosférica acaba se modificando. Estamos observando as chuvas aumentando e as temperaturas, de maneira geral, acima da média", explica Furlan.
Fenômeno em processo de fortalecimento
O meteorologista destaca que o atual El Niño apresenta um processo de fortalecimento considerado acelerado em comparação com outros eventos registrados historicamente. "A projeção para o período entre 2026 e o próximo ano coloca o fenômeno entre os episódios que exigem maior atenção. Os impactos podem ser sentidos principalmente por meio da alteração no regime de chuvas e do aumento da ocorrência de eventos extremos". Ele complementa que para o Paraná e, especialmente, para a região Oeste, isso significa a necessidade de acompanhar com atenção a evolução das condições meteorológicas e, principalmente, investir em medidas de prevenção.
Planejamento pode reduzir impactos
Leonardo Furlan ressalta que fenômenos como o El Niño não devem ser analisados apenas sob a perspectiva da previsão do tempo. Os possíveis impactos precisam ser considerados no planejamento das cidades, nas políticas de reflorestamento e na ocupação das áreas urbanas e rurais.
Frentes frias e sistemas de baixa pressão, por exemplo, fazem parte da dinâmica atmosférica da região e podem provocar episódios de chuva intensa. Quando esses fenômenos encontram áreas urbanas vulneráveis, os prejuízos podem ser ampliados.
Por isso, medidas como a preservação e recuperação da mata ciliar às margens de rios e lagos, além de um planejamento adequado da expansão urbana, são apontadas como ferramentas importantes para reduzir riscos de alagamentos, transbordamentos e outros impactos. "Esses processos precisam ser elaborados com o tempo e da forma mais correta. Quando as medidas de mitigação são bem planejadas, elas auxiliam e trazem segurança para a população. Mas, quando esses processos não são levados a sério, a preocupação para as pessoas é muito maior", alerta o meteorologista.
"Preparar hoje para os eventos de amanhã"
Para Furlan, embora muitas medidas de prevenção possam parecer tardias diante de problemas que já ocorrem atualmente, começar o processo de adaptação é fundamental para reduzir os impactos futuros.
O crescimento acelerado das cidades torna esse planejamento ainda mais necessário. Áreas que antes eram pouco ocupadas passam a receber novos empreendimentos e estruturas urbanas, aumentando a exposição da população aos efeitos de eventos climáticos extremos.
Nesse cenário, ações de reflorestamento, preservação ambiental e planejamento urbano podem fazer diferença na capacidade de resposta das cidades. "Por vezes é tarde, mas antes tarde do que nunca. A partir do momento em que se inicia o processo de mitigação, é possível fazer o planejamento urbano. Antes acontecia e agora acontece cada vez mais. Estamos crescendo as cidades, e os cuidados com a área urbana precisam considerar os eventos futuros", afirma Furlan.
A discussão sobre o El Niño ocorre justamente em um momento em que municípios buscam novas ferramentas para compreender e enfrentar os efeitos das mudanças climáticas. Em escala global, autoridades e especialistas têm se reunido para discutir estratégias de adaptação e prevenção.
Em Toledo, a implantação do Smart Climate City amplia esse debate ao aproximar tecnologia, monitoramento meteorológico e planejamento público, com o objetivo de transformar dados climáticos em ferramentas capazes de contribuir para cidades mais preparadas e seguras diante dos eventos extremos.
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