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Poucas vezes o mercado brasileiro deu uma resposta tão clara a uma eleição. No primeiro pregão após o primeiro turno, o Ibovespa avançou 7,70%, fechou acima dos 206 mil pontos e renovou seu recorde histórico. O dólar caiu mais de 4%, para próximo de R$ 5, e as taxas de juros futuros despencaram. Em alguns vencimentos intermediários e longos, a queda chegou a aproximadamente um ponto percentual em apenas um dia.
É um movimento grande demais para ser tratado apenas como mais um dia positivo na Bolsa. Mas o que mudou tanto de sexta-feira para segunda-feira? Afinal de contas, a economia brasileira continua essencialmente a mesma. A dívida pública não diminuiu durante o fim de semana. O déficit não desapareceu. A produtividade não aumentou. Nenhuma reforma estrutural foi aprovada.
O que mudou, no entanto, foi a expectativa. E mercados são, antes de tudo, máquinas de precificar expectativas.
O resultado do primeiro turno colocou Flávio Bolsonaro à frente do presidente Lula, contrariando pesquisas que indicavam o atual presidente na liderança. Flávio recebeu aproximadamente 47% dos votos válidos, contra cerca de 45% de Lula.
Antes das urnas, uma eventual ida de Flávio Bolsonaro ao segundo turno já era considerada pelo mercado. O cenário favorável seria chegar competitivo, perdendo por uma margem pequena e mantendo aberta a possibilidade de virada. Entretanto, ele chegou ao segundo turno vencendo.
E essa diferença aparentemente pequena alterou de maneira importante a distribuição de probabilidades considerada pelos investidores. Aquilo que era visto como possibilidade de alternância de poder passou a ser tratado como uma hipótese muito mais concreta. E é aqui que se começa a explicar a euforia.
Não significa que o mercado tenha descoberto, de um dia para o outro, todas as virtudes de um eventual governo Flávio Bolsonaro. Significa algo bem mais simples. Ou seja, o mercado está concedendo ao possível novo governo aquilo que já não concede ao atual: benefício da dúvida.
A percepção de parte relevante dos investidores é de que o atual governo não demonstra disposição para promover um verdadeiro "freio de arrumação" nas contas públicas. O debate fiscal dos últimos anos foi marcado por aumento de despesas, dificuldade para produzir superávits consistentes e crescimento da dívida, enquanto a necessidade de um ajuste estrutural permanece.
Com um eventual novo governo, ainda não sabemos exatamente o que será feito. E, paradoxalmente, é justamente esse desconhecimento que hoje possui valor.
Existe a possibilidade de uma política fiscal mais austera, de revisão de despesas, reformas e maior preocupação com a trajetória da dívida. O mercado não sabe se isso acontecerá. Mas passou a considerar que pode acontecer. E o mercado não espera a confirmação dos fatos para precificar os ativos, ele antecipa.
E essa antecipação foi extremamente positiva para a curva de juros ontem (05/10). O conceito de curva de juros, para quem não possui familiaridade com a rotina de acompanhamento de mercado, pode parecer confuso. Portanto, cabe um contexto.
A chamada curva de juros pode ser entendida como uma espécie de mapa das taxas de juros que o mercado exige para emprestar dinheiro ao longo do tempo.
Existem taxas para horizontes mais curtos e outras para períodos de vários anos. Quanto maior a desconfiança sobre inflação, dívida pública, política fiscal e capacidade do governo de organizar suas contas, maior tende a ser o prêmio exigido pelos investidores, principalmente nos vencimentos mais longos.
Na segunda-feira pós eleições, essas taxas caíram em praticamente toda a curva. O DI para janeiro de 2029, por exemplo, saiu de aproximadamente 13,75% para 12,65%, enquanto o contrato para 2031 caiu de quase 14% para 12,70%.
Em português claro: o mercado passou a cobrar menos para emprestar dinheiro ao Brasil. Não porque o problema fiscal tenha sido resolvido. Mas porque aumentou a probabilidade atribuída a um cenário em que ele comece a ser enfrentado.
Existe ainda outro componente importante no movimento. As urnas não escolheram apenas quem disputará o segundo turno presidencial. Elas modificaram significativamente a composição do Congresso. O PL elegeu 121 deputados federais e passará a ter a maior bancada da Câmara. No Senado, o partido chegará a 28 cadeiras em 2027, também formando a maior bancada da Casa.
Isso não significa maioria automática e tampouco garante aprovação de reformas. O sistema político brasileiro continuará exigindo negociação com outras legendas. Mas significa que, caso Flávio Bolsonaro seja eleito, começaria seu governo com uma correlação de forças no Congresso bastante diferente daquela enfrentada por presidentes que precisam construir praticamente do zero sua sustentação parlamentar.
E, para o mercado, isso é muito importante. Um presidente disposto a realizar ajuste fiscal, mas incapaz de aprová-lo no Congresso, possui capacidade limitada de mudar a trajetória das contas públicas. Um presidente com uma base parlamentar relevante tem outra margem de manobra. Foi também essa possibilidade que entrou nos preços.
E porque esse debate sobre as contas públicas é tão importante? Pois pode parecer que déficit fiscal, dívida pública e curva de juros sejam assuntos restritos a economistas e operadores do mercado financeiro. Entretanto, não são.
Quando um país gasta persistentemente mais do que arrecada e sua dívida cresce sem uma perspectiva clara de estabilização, quem empresta dinheiro ao governo começa a exigir juros maiores para continuar financiando essa dívida. E o governo brasileiro é o maior tomador de recursos da economia.
Se ele precisa pagar mais para captar dinheiro, essa taxa elevada funciona como referência para praticamente todo o restante do sistema financeiro.
A empresa paga mais para financiar uma nova fábrica. O produtor paga mais pelo crédito. O incorporador encontra financiamento mais caro. O consumidor paga prestações maiores no carro, no imóvel e no crédito pessoal. Ou seja, projetos que seriam economicamente viáveis deixam de ser, investimentos são adiados, e empresas muito endividadas passam a ter dificuldades para refinanciar suas obrigações.
No fim do dia, a atividade econômica perde força. E, no limite, a população sente tudo isso na menor geração de empregos, no crédito mais caro e no crescimento mais fraco da renda. Por isso responsabilidade fiscal não é uma discussão contábil. É uma discussão sobre o custo do dinheiro em toda a economia.
E, diante de tudo isso, pode-se dizer que o mercado está comprando uma promessa. O mercado não está comemorando um ajuste fiscal. Está antecipando um ajuste fiscal que ainda não aconteceu.
Não existe novo governo. Não existe nova equipe econômica empossada. Não existe reforma aprovada. Não existe trajetória da dívida corrigida. Existe apenas uma expectativa. E expectativas podem mudar muito mais rapidamente do que fundamentos.
Caso Flávio Bolsonaro confirme a vitória no segundo turno, provavelmente começará uma segunda eleição no dia seguinte. Desta vez, porém, não nas urnas. Será uma eleição diária de confiança conduzida pelo mercado.
Cada nome anunciado para a equipe econômica, cada declaração sobre gastos, cada proposta orçamentária, cada negociação no Congresso e cada sinalização sobre dívida pública será utilizado para responder uma pergunta: o benefício da dúvida era justificável?
Se a resposta começar a ser positiva, parte do movimento visto agora poderá deixar de ser apenas expectativa e encontrar sustentação nos fundamentos.
Mas o inverso também é verdadeiro. Se um eventual novo governo frustrar as expectativas, evitar reformas, ampliar despesas e demonstrar a mesma incapacidade de estabilizar a trajetória fiscal que hoje preocupa investidores, o prêmio de risco pode retornar. A curva de juros pode voltar a abrir, o dólar pode voltar a subir, e a Bolsa pode devolver parte importante daquilo que antecipou.
Mercados costumam ser rápidos para conceder confiança quando enxergam uma mudança de cenário. São igualmente rápidos para retirá-la quando percebem que erraram.
Talvez, portanto, a alta de mais de 7% do Ibovespa não deva ser interpretada como uma declaração de confiança em um governo que sequer foi eleito. É uma enorme aposta de que existe uma janela para mudar a trajetória econômica brasileira. O primeiro turno abriu essa janela, e o mercado correu para precificá-la. Agora falta descobrir se estamos diante de uma convicção sustentada por aquilo que virá, ou apenas de uma euforia que os fatos ainda precisarão justificar.
Existe um ditado muito conhecido no mercado financeiro: a bolsa "sobe no boato e cai no fato". Será esse o caso? Espero que não.
texto de Ayslan Guetner
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