Há 59 anos, em 25 de setembro de 1967, dois políticos que durante anos estiveram em lados opostos do cenário nacional se encontravam em Montevidéu, no Uruguai, para defender uma causa em comum: a redemocratização do Brasil.
De um lado estava Carlos Lacerda, ex-governador da Guanabara e uma das principais lideranças da União Democrática Nacional (UDN). Do outro, João Goulart, ex-presidente da República deposto pelo golpe de 1964 e então exilado no Uruguai.
O encontro fazia parte das articulações da Frente Ampla, movimento que reunia Lacerda, Goulart e o ex-presidente Juscelino Kubitschek em uma tentativa de formar uma frente de oposição ao regime militar.
De adversários a aliados
A aproximação entre Lacerda e Goulart chamava atenção justamente pelo histórico de confronto entre os dois.
Lacerda havia feito oposição sistemática ao governo Goulart e esteve entre os civis que apoiaram o movimento político-militar que derrubou o presidente em março de 1964. A FGV registra que Lacerda participou das articulações posteriores ao golpe e chegou a apoiar a candidatura do general Castelo Branco à Presidência.
A oposição entre os dois também vinha de antes do golpe. Durante o governo Goulart, Lacerda utilizava sua atuação política e a imprensa para atacar o presidente. Em 1963, por exemplo, uma entrevista de Lacerda ao jornal norte-americano Los Angeles Times, posteriormente publicada pela Tribuna da Imprensa, provocou forte reação dos ministros militares e agravou a crise política em torno de Goulart.
Em 1964, Lacerda apoiou a derrubada de Goulart. O golpe levou o ex-presidente ao exílio no Uruguai.
A ruptura de Lacerda com o regime
A relação de Lacerda com os militares, entretanto, mudou nos anos seguintes.
Depois de apoiar o novo regime, ele passou a divergir dos rumos do governo. A suspensão das eleições diretas para a Presidência, entre outras medidas, atingiu diretamente suas pretensões políticas. Segundo a FGV, Lacerda se afastou progressivamente do projeto político-militar que havia apoiado.
Foi nesse contexto que surgiu a ideia de reunir antigos adversários em uma frente de oposição.
Em 1966, Lacerda começou a articular a Frente Ampla, aproximando-se de Juscelino Kubitschek e, posteriormente, de João Goulart. A proposta defendia a união de diferentes correntes políticas em torno da redemocratização do país.
O encontro em Montevidéu
Em 24 de setembro de 1967, Lacerda viajou ao Uruguai. No dia seguinte, encontrou-se com Goulart em Montevidéu. O encontro contou com Renato Archer como representante de Juscelino Kubitschek.
Depois das conversas, Lacerda e Goulart divulgaram uma declaração conjunta em defesa da Frente Ampla e da redemocratização brasileira.
O documento destacava a necessidade de unir esforços para buscar uma solução pacífica para a crise política do país, deixando de lado ressentimentos pessoais e objetivos de revanche.
A imagem dos dois antigos adversários juntos chamou atenção no Brasil. Afinal, poucos anos antes, Lacerda havia sido um dos mais contundentes críticos de Goulart e apoiado sua deposição.
Uma aliança que surpreendeu
A aproximação também provocou reações entre os antigos aliados de Lacerda. Segundo registros históricos sobre a Frente Ampla, setores da chamada linha-dura militar se incomodaram com a aproximação do político com Goulart e Juscelino e retiraram o apoio que ainda davam a Lacerda.
A Frente Ampla continuou suas atividades durante os meses seguintes, reunindo setores políticos de diferentes correntes. O movimento, porém, seria proibido pelo governo em abril de 1968, por meio da Portaria nº 177 do Ministério da Justiça.
Um encontro que entrou para a história
O encontro de 25 de setembro de 1967 ficou marcado pela contradição entre o passado político dos dois homens e a nova circunstância que os colocava do mesmo lado.
Lacerda e Goulart haviam sido adversários durante anos. Em 1967, porém, diante do novo cenário político brasileiro, aceitaram negociar e defender juntos a redemocratização.
A Frente Ampla teria vida curta, mas a aproximação entre os dois entrou para a história como um dos episódios mais emblemáticos da política brasileira durante o regime militar.
Antonio Mendonça/ Catve
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