Política

Acordo UE-Mercosul cria uma das maiores zonas de livre comércio do mundo


Foto Mercosur

PUBLICIDADE

Depois de quase três décadas de negociações, o acordo entre Mercosul e União Europeia foi finalmente assinado em 17 de janeiro de 2026. Para alguns, o momento simboliza uma retomada da abertura comercial e do multilateralismo. Para outros, trata-se de um pacto tardio, nascido em um mundo mais protecionista do que aquele em que foi idealizado. Mas uma coisa é certa: a assinatura não encerra a história — ela inaugura a parte mais complexa.

Do ponto de vista econômico, os benefícios potenciais permanecem intactos. O Mercosul obtém acesso preferencial a um mercado de alto poder aquisitivo e com forte demanda por alimentos, proteínas e bens intermediários. A União Europeia amplia sua presença em um mercado populoso e ainda relativamente fechado para produtos industriais de maior valor agregado. Em termos clássicos de comércio internacional, há ganhos de eficiência, especialização e aumento de escala dos dois lados.

Para o Brasil, os dividendos podem ser particularmente expressivos. O agronegócio — já competitivo globalmente — tende a capturar margens melhores ao entrar de forma mais previsível e menos tarifada em mercados premium. Indústrias brasileiras com capacidade tecnológica, como química fina, máquinas agrícolas e equipamentos médicos, ganham janela de integração em cadeias europeias. Do ponto de vista institucional, o país se reposiciona geoeconomicamente: equilibra relações com EUA e China e mostra capacidade de negociar em bloco, algo que dá peso geopolítico.

Mas a assinatura é apenas o meio do caminho. Para que o acordo entre efetivamente em vigor, há três etapas críticas: 1) Ratificação interna no Mercosul, incluindo ajustes regulatórios e harmonização tarifária; 2) Ratificação europeia, que passa tanto pelo Parlamento Europeu quanto por parlamentos nacionais — ponto tradicionalmente sensível, e; 3) Implementação dos anexos ambientais e industriais, que a UE transformou em condição política e jurídica, não apenas comercial.

É nessa última dimensão que está o verdadeiro teste. Europa e Mercosul tentarão provar que comércio e sustentabilidade não são objetivos opostos. Os capítulos ambientais observam desmatamento, rastreabilidade e metas climáticas com instrumentos verificáveis. Sem isso, o risco não é apenas diplomático: parlamentos europeus já deixaram claro que podem travar a ratificação caso percebam retrocessos.

A política interna europeia segue sendo o maior obstáculo — parte dos agricultores teme competição do agronegócio sul-americano, e partidos verdes ou protecionistas enxergam o acordo como ameaça a padrões ambientais e sociais. Na prática, ninguém mais avalia acordos comerciais apenas pelo prisma econômico: a política industrial, a segurança alimentar e o clima passaram a integrar o mesmo cálculo.

O ponto-chave para o Brasil é encarar o tratado como alavanca de modernização doméstica. Acordos comerciais não geram competitividade por osmose; exigem reformas logísticas, aduaneiras, regulatórias e tecnológicas. Sem isso, o país corre o risco de abrir seu mercado e capturar pouco valor — um receio antigo que explica boa parte do protecionismo histórico brasileiro.

Por outro lado, se o Brasil tratar a implementação como barganha estratégica — reforçando rastreabilidade no agro, investindo em propriedade intelectual, e reduzindo custo sistêmico na indústria — o acordo pode se tornar o maior passo de inserção internacional desde a criação do próprio Mercosul.

O ponto é: o acordo deixou de ser "se" e passou a ser "quando e como". A assinatura encerra a era do impasse. Agora começa an era da execução — e é nela que se decidirá se o tratado será lembrado como oportunidade histórica ou como promessa frustrada.


Texto de Ayslan Guetner profissional do mercado financeiro especialista em investimentos

texto de Ayslan Guetner

** Envie fotos, vídeos, denúncias e reclamações para a equipe Portal CATVE.com pelo WhatsApp (45) 99982-0352 ou entre em contato pelo (45) 3301-2642


NOTÍCIAS RELACIONADAS

Mais lidas de Política
Últimas notícias de Política