Política

O desenho de um novo tabuleiro global - por Ayslan Guetner


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A captura de Nicolás Maduro não representa apenas o possível colapso de um regime autoritário latino-americano. Ela simboliza algo maior e mais profundo: uma reorganização explícita do poder geopolítico global, marcada pela consolidação de esferas de influência regionais e pelo enfraquecimento definitivo da ordem liberal internacional construída após a Guerra Fria.

Nos últimos anos, o mundo deixou de disfarçar o que antes era tratado como exceção. A China age como potência hegemônica na Ásia, a Rússia trabalha fortemente para redefinir seu controle sobre o Leste Europeu, e os Estados Unidos parecem cada vez mais dispostos a reassumir um papel dominante no hemisfério ocidental. A queda de Maduro, nesse contexto, funcionaria como um marco simbólico: o momento em que Washington sinaliza que a América Latina voltou a ser prioridade estratégica.

A captura de um líder como Maduro indicaria que os EUA não tolerariam mais regimes hostis ou alinhados a potências rivais em seu entorno geográfico. Não se trata apenas da Venezuela, mas da mensagem enviada ao continente: alianças com Rússia, China ou Irã têm custos crescentes.

Isso se encaixa em um padrão mais amplo. Pequim já exerce influência econômica, tecnológica e política dominante na Ásia, sobretudo por meio da Iniciativa do Cinturão e Rota, do controle de cadeias produtivas estratégicas e do peso financeiro sobre países endividados. Moscou, por sua vez, encara o Leste Europeu como zona vital de segurança, ainda que isso implique isolamento econômico e conflito prolongado. Washington, ao reforçar sua presença na América Latina, estaria aceitando, de forma tácita, um mundo multipolar dividido em áreas de controle.

No médio prazo, a principal consequência econômica é a fragmentação. Cadeias globais de valor tendem a se regionalizar ainda mais, reduzindo eficiência, mas aumentando previsibilidade política. Países serão pressionados a escolher lados, e essa escolha influenciará acesso a crédito, investimentos, tecnologia e mercados.

Para a América Latina, o impacto pode ser ambíguo. Por um lado, maior influência americana pode significar: aumento de investimentos em energia, infraestrutura e segurança; maior integração comercial com os EUA; estabilização política em países historicamente vulneráveis.

Por outro, isso pode reduzir a margem de manobra diplomática e limitar parcerias com China e Rússia, que hoje são relevantes financiadores e compradores de commodities latino-americanas.

No longo prazo, o risco maior é o de um crescimento global estruturalmente menor. A divisão do mundo em blocos reduz ganhos de escala, aumenta custos de transação e reforça a inflação estrutural, especialmente em setores estratégicos como energia, semicondutores e alimentos.

A captura de Maduro poderia ser vista, por alguns, como um fator de estabilidade regional. Mas, no plano global, reforça uma lógica de confronto contínuo. Um mundo organizado por zonas de influência tende a ser menos cooperativo e mais suscetível a choques econômicos, financeiros e militares.

Em vez de um sistema regido por regras comuns, teríamos um equilíbrio instável, baseado em poder, dissuasão e interesses imediatos. A história mostra que esse tipo de arranjo pode durar décadas, mas raramente sem crises recorrentes.

Se a queda de Maduro marcar esse novo capítulo, ela será lembrada menos como um evento isolado na Venezuela e mais como um símbolo de que a globalização deu lugar, definitivamente, à geopolítica.

texto de Ayslan Guetner

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